As trabalhadoras do sexo continuam entre os grupos mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas em Moçambique. Contudo, as políticas e programas de resposta aos desastres naturais raramente as consideram. O alerta surgiu esta quinta-feira, em Maputo, durante um workshop promovido pela Pathfinder Moçambique.
Manual orientador para integração nas políticas climáticas
O encontro serviu para apresentar um manual orientador sobre a integração destas comunidades nas estratégias de adaptação climática. Além disso, reuniu organizações da sociedade civil, representantes governamentais e parceiros internacionais. Juntos, discutiram os efeitos dos eventos climáticos extremos sobre grupos populacionais vulneráveis.
O director nacional da Pathfinder Moçambique, Joaquim Fernando, explicou que a relação entre mudanças climáticas e populações-chave, como as trabalhadoras do sexo, continua pouco estudada no país. “Estamos perante uma realidade em construção. Ainda há muito por compreender sobre a forma como as mudanças climáticas afectam estes grupos e quais são as respostas mais adequadas”, afirmou.
Segundo Fernando, uma avaliação realizada nas províncias de Manica, Sofala e Nampula deu origem ao manual. Ainda assim, reconheceu que persistem várias lacunas que exigem mais investigação. “O documento representa apenas o início de um processo. A sua implementação permitirá recolher novas experiências e melhorar as intervenções futuras”, acrescentou.
Desafios em situações de emergência
Entre os principais desafios que as trabalhadoras do sexo enfrentam durante emergências climáticas destacam-se a perda de rendimento, as dificuldades de acesso a habitação segura, a interrupção dos serviços de saúde e o aumento da exposição à violência e à exploração.
Além dos impactos directos dos desastres naturais, estas mulheres enfrentam ainda barreiras adicionais relacionadas com o estigma social, a discriminação e o acesso limitado à protecção social. Por isso, estes factores agravam ainda mais a sua capacidade de recuperação após eventos extremos.
Inclusão é essencial, defende diplomata neerlandês
O primeiro-secretário da Embaixada do Reino dos Países Baixos em Moçambique, Nick Veldwijk, defendeu que as respostas às mudanças climáticas devem ir além da reconstrução de infra-estruturas. Para o diplomata, é necessário considerar também os impactos sobre a vida e os meios de subsistência das populações mais vulneráveis.
“As mudanças climáticas afectam directamente a segurança, a saúde, os rendimentos e o acesso aos serviços básicos. Os trabalhadores do sexo estão entre os grupos mais afectados, mas muitas vezes permanecem invisíveis nas políticas públicas”, afirmou. Por isso, sublinhou que “uma estratégia climática que deixa de fora os trabalhadores do sexo não pode ser considerada verdadeiramente inclusiva”. Além disso, Veldwijk destacou a necessidade de produzir mais estudos e dados sobre esta ligação, de forma a orientar melhor as políticas futuras.
Moçambique entre os países mais vulneráveis
Moçambique continua entre os países mais expostos aos efeitos das mudanças climáticas. De acordo com dados apresentados durante o workshop, o país figura entre os mais vulneráveis do mundo a desastres naturais. Com efeito, ciclones, cheias e secas têm afectado milhões de pessoas nas últimas décadas. Nos últimos 30 anos, eventos climáticos extremos afectaram directamente cerca de 14% da população moçambicana, com consequências significativas para a habitação, os meios de subsistência e o acesso a serviços essenciais.
Próximos passos
Os participantes defenderam que as políticas de adaptação climática devem reconhecer as necessidades específicas das populações marginalizadas. Desta forma, garante-se que nenhum grupo fique excluído das acções de prevenção, resposta e recuperação.
Parceiros internacionais apoiaram o desenvolvimento do manual agora apresentado. Este será implementado em coordenação com uma plataforma nacional de organizações que trabalham com trabalhadoras do sexo. Assim, o objectivo passa por reforçar a inclusão social e a resiliência destas comunidades perante os impactos das mudanças climáticas.
A iniciativa integra o Projecto Hands Off, cujo balanço final está previsto para decorrer na Ponta do Ouro, onde os participantes vão avaliar os resultados alcançados ao longo de cinco anos de implementação.
Laura Tembe/AIM






