Por Clésio Foia, Economista-Chefe da FUNDEC
Durante décadas, Moçambique avaliou a sua economia com base em percepções fragmentadas e indicadores internacionais que nem sempre captavam a realidade do tecido empresarial nacional. Hoje, porém, essa realidade começa a mudar. O Índice de Competitividade Empresarial de Moçambique (ICEM 2024-2025) e o Rating Empresarial Financeiro 2025, desenvolvidos pela FUNDEC, representam um salto institucional na inteligência económica do país.
Competitividade como ciência
Os dados mostram que o ICEM passou de 26,26 pontos no primeiro semestre de 2024 para 30,01 no segundo semestre, uma evolução de 14,62 por cento. Contudo, em 2025, observou-se uma inversão parcial: o índice caiu de 28,12 para 26,43 pontos, uma contracção de 6,01 por cento. Segundo Foia, esta desaceleração reflecte o aumento dos custos operacionais, pressão cambial, encarecimento logístico e redução da intermediação financeira. Portanto, não representa colapso, mas sim um sinal de alerta estratégico.
Produtividade baixa ameaça toda a economia
Na agricultura, a produtividade caiu mais de 44 por cento entre semestres, tanto em 2024 como em 2025. Consequentemente, o sector mais empregador do país continua excessivamente vulnerável à sazonalidade, baixa mecanização e reduzida incorporação tecnológica. Adicionalmente, a indústria transformadora mantém produtividade estruturalmente baixa, revelando que Moçambique ainda exporta demasiada matéria-prima e industrializa muito pouco. Nesse sentido, Foia compara a situação a “um país que vende troncos de madeira e depois importa móveis caros feitos com a mesma madeira”.
Investimento cauteloso e descontinuado
Os dados do CAPEX revelam um padrão preocupante. Apesar de um aumento nominal anual de 15,85 por cento em vários sectores, registam-se quedas superiores a 36 por cento entre semestres. Isto significa que as empresas investem de forma defensiva e descontínua. Segundo Foia, o empresariado ainda não sente estabilidade suficiente para assumir ciclos longos de investimento, sobretudo face à incerteza cambial, custos financeiros elevados e fragilidade logística.
Crédito em desaceleração
O Rating Empresarial Financeiro caiu de 46,64 pontos no primeiro trimestre de 2025 para 39,57 no terceiro trimestre, antes de uma ligeira recuperação para 39,8 no quarto trimestre. Adicionalmente, a intermediação financeira apresenta sinais de enfraquecimento em quase todos os sectores. Para Foia, “o crédito funciona como o sistema circulatório da economia. Sem circulação financeira eficiente, o tecido empresarial perde oxigenação.”
Exportar mais não significa ganhar mais
A agricultura e as indústrias extractivas apresentam forte crescimento na intensidade exportadora. Porém, surge uma questão central: quanto valor agregado fica efectivamente em Moçambique? Nesse sentido, Foia defende que o verdadeiro desenvolvimento não acontece apenas quando se exporta mais, mas quando se exporta com transformação industrial, tecnologia e produtividade incorporadas.
Soberania estatística como marco histórico
Os instrumentos da FUNDEC permitem agora identificar sectores vulneráveis, medir eficiência de capital, antecipar deteriorações financeiras e orientar políticas públicas com base em evidência quantitativa. Consequentemente, Moçambique começa a construir soberania estatística empresarial. Segundo Foia, os três grandes desafios estruturais identificados são a baixa produtividade, a fragilidade da intermediação financeira e a insuficiente transformação industrial. Por outro lado, sectores como transporte, logística, comércio e serviços revelam capacidade de recuperação e potencial de crescimento.
O próximo passo, conclui o economista, é transformar os dados em política económica inteligente, ligando competitividade empresarial a incentivos fiscais, industrialização, digitalização e fortalecimento das cadeias de valor nacionais.